domingo, 28 de maio de 2017

Lembrei-me das vezes em que te protegia. Ou pelo menos tentava.

Não conseguimos ver o que vem a seguir. Mas sabia-mo-lo bem: quando ele (não)chegava a casa. Passado este tempo todo sei-o na mesma, ainda o sinto na mesma forma. Pequenina. Com coragem, mas sem voz. Prometo, prometer-te-ia a vida toda: que se tivesse o tamanho da minha voz agora, que estarias protegida. Não só mentalmente. Que tudo o que eras seria o que as minhas barreiras escondem e enaltecem sobre ti. Às vezes pergunto-me porque não usaste a força que me ensinas-te a usar - eu sei que ela veio de ti. Porque não tentaste ser feliz como me ensinas-te a ser - eu sei que veio tudo de ti. O porquê de não acreditares que a nossa vida ia ser melhor sem ele. Quando não jantava em casa. Quando vivíamos no escuro. Na escuro da incerteza de saber o que esperar. Na poeira da realidade desfocada. 
-Proteger-te-ia. Com tanta força que ficaríamos bem o resto da vida. 
Agora, já passaram doze anos. Da tua morte. Já morreste mais anos do que aqueles que viveste na minha vida (sabes que o vives a todo o tempo). Mais do que o tempo em que pude abraçar a tenacidade dos nossos momentos. Mais do que o tempo em que me penteavas o cabelo e sorrias para o brilho que reflectia no meu olhar. No espelho do meu coração. (Dessa saudade fica a força com que queria que todo esse tempo fosse todo o nosso tempo.) Jurar-te-ia que não te deixaria sofrer. Como sei que o fazias comigo. Passado doze anos lembrei-me de como era tão pequenina e te queria tanto proteger. Já foste embora à tanto tempo.
-Porque é que a vida não esperou para que eu ganhasse voz para te proteger.
Como é que é possível perdoar a mesma vida que te retirou da minha. Do meu espaço. Que te levou sem te deixar proteger. Tento perceber ao mesmo tempo porque não saltaste fora do cerco. Esse que espezinhava o que eras. (Como é possível espezinharem algo tão bonito e poderoso). Eras tão bonita e poderosa. 
Perdoa-me ter sido pequenina. Obrigada, da mesma forma, por teres amado a pequenina da maneira mais intensa que alguém consegue amar alguém e me teres dado o que sou. 
Já partiste à mais tempo do que aquele em que viveste comigo. Como é que o tempo pode passar assim. Quem me dera poder voltar para ser a borboleta que te desse asas. Quem me dera o meu amor ter sido o suficiente para parar com o teu sofrimento. 
Houvessem palavras para descrever a dor que sinto... Houvessem palavras que demonstrassem a força com que não sei perdoar a vida que te roubou.

Houvessem momentos em que conseguisse-mos roubar o tempo à vida e mudá-lo. Fazer-te-ia a mulher mais bonita e capaz do mundo.

Hoje lembrei-me do que nunca me tinha lembrado: nunca dormias sozinha quando ele (não)chegava a casa.
Mas depois chegava.


1 comentário:

  1. Há dores que nos acompanham para sempre, pela perda que simbolizam, pelas memórias que nunca se apagam...

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