quarta-feira, 25 de março de 2015

Todos temos cicatrizes, umas maiores que as outras. Outras mais invisíveis que umas. Umas mais escondidas que algumas. Aquelas que vivem por detrás da pele que brilha todos os dias: são as que chamo de cicatrizes sombra. As que vemos apenas quando o dia já não é tão perfeito. Ou o é, mas temos tempo (os tempos nada) que nos fazem descobrir o que já vive connosco. Aquilo que dói. Aquele que vive escondido por isso mesmo: por doer. A minha maior cicatriz foi ter-te perdido da minha vida, enquanto pessoa, enquanto mãe, enquanto amiga, enquanto refúgio. Tenho outras... Umas que partilhei contigo: como aquelas em que vi a tua dor. Nos últimos tempos da tua vida. Outras que guardei para que não sofresses mais. E ainda aquelas que ganhei depois de ver que da tua voz restou o silêncio. Que do teu olhar sobrou só a sua memória. Que do teu abraço apenas ficou o meu. Esse que vive comigo agarrado à derme e aos sítios mais recônditos do meu corpo. Sinto-te a falta. E nas cicatrizes que vejo quando o tempo está morto choro ainda mais a tua partida. E a cicatriz abre. Perfura. Corrói. E a cicatriz chora também. E não sara. De todas as cicatrizes que podemos ter na vida como as que o amor provoca, aquelas que provocamos a nós mesmos, a que os outros (às vezes sem querer) nos deixam na alma, a da tua partida é a maior. E não está só num pedaço de mim... Se me despissem viam que se encontra em todos os poros. Se me vissem a alma reparavam que vive na extensão de tudo o que sou. Umas vezes mais calma, outras vez tão brava que me queima o corpo todo. Tão brava que tenta expulsar toda a saudade que guardei ao longo destes anos todos. Tão brava que, às vezes, explode. Num misto de sentimentos que dão cabo da sanidade que consegui criar ao tentar aprender a viver sem ti. Num misto de dor que nem grau deve haver para a classificar. Sinto-te a falta e é nas palavras que me refugio quando consigo sentir as cicatrizes do meu corpo. Quando dói muito para algo mais que o silêncio falar. Estou a chorar tanto. Porque te amo. Porque não estás cá. Porque a cicatriz que ficou da tua ida está a chorar. No tempo morto que encontrei hoje descobri que ela está do mesmo tamanho. Só que com uma densidade inquestionável. Com uma carga nas suas feridas que dói só de olhar a minha alma nua. Todos temos cicatrizes. Umas maiores que as outras, outras mais invisíveis e algumas mais escondidas. Aquela que guardo de ti junta tudo isso. Porque de toda a felicidade que vivo, porque ainda me lembro da maneira brilhante como sorrias, esta junta tudo isso. Descobri que está com o mesmo tamanho e eu sei o porquê... Toda ela é do tamanho do que sou. E nenhuma cicatriz poderá ser mais forte que aquelas que são do nosso tamanho. Esta que vive com a minha vida e que de vez em quando se apodera de mim. Todos as temos. Todos, de vez em quando, sofremos. Esta vive todos os dias comigo. Oxalá não tivesse tanto poder... Oxalá todas as cicatrizes pudessem sarar.

3 comentários:

  1. Oh querida, lamento muito :( há cicatrizes que não saram mesmo mas espero que essa, mesmo que nunca sarando, possa amenizar um pouco com o tempo, criando uma película protectora para que não sofras tanto :s força *

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  2. As cicatrizes, físicas e emocionais, podem não desaparecer mas aprendemos - com o decorrer dos anos - a viver com elas. Deixam de doer tanto, paramos de lhes passar os dedos. Passam a ser parte de nós, contando a nossa história sem que isso nos atire de volta ao passado. Passam a ser, só, cicatrizes!

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  3. Tens razão, querida Mariana, como sempre. Um beijinho enorme para ti, cheio de amor. Espero que todas as tuas cicatrizes sarem aos poucos, espero mesmo. <3

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