terça-feira, 21 de abril de 2015

A carta que não queria escrever

Escrevo para ti porque hoje quero escrever sobre mim. Da minha dor. Dos momentos em que quebrei por te ver partida. Das horas que não peguei no sono porque não estavas em casa. Dos segundos em que desejei matar-te o cancro. A merda do cancro que se agarrou a ti. A merda da doença que arranjou em ti casa. Tu que eras a minha casa!! Quero falar porque ninguém me deixa falar sobre isso. E tenho o direito de deixar escapar a angústia que vivi. O sofrimento de alguém sem idade suficiente para perceber que poderias desaparecer. O sofrimento de saber que te podia dizer adeus. A qualquer momento (porque mo diziam). Falar da última vez que te vi... Sem pensar no quão doloroso pode ser alguém ler isto. Porque normalmente fica tudo calado. Porque normalmente ninguém fala disto. Porque nunca me deixaram falar. Da vontade incrível que tinha de mandar o mundo para a puta que o pariu. Porque te estavam a levar de mim. De nós. Porque deixas-te de dormir em casa. Porque deixas-te de te despedir de mim. Porque te separaram do que era nosso. Porque te enfiaram numa cama de hospital. Indefesa. Porque a minha vida ficou calada. Escura. Mas como é que eu poderia pensar que a vida podia ser tão madrasta? Escrevo sobre a minha dor porque uma das minhas maiores fraquezas é pensar no quão foi arduamente difícil para ti. Mesmo com a força de um furacão saberes que ias ficar sem nós. Nunca me expressei sobre isso... E hoje quero-te dizer que sinto muito pela dor que tiveste de sentir. Da solidão de saber que éramos nós que íamos ficar sem ti. Desculpa. Por não ter matado o que te fazia mal. Por não saber como arrancar o mal que arruinou o teu sorriso. Que o fechou. Mãe. Desculpa estar a escrever sobre as nossas dores... Mas nunca ninguém me deixou sofrer. E num dia em que me dói o coração quero mandar tudo pelos ares. Num vontade invencível de te voltar a trazer para mim. Para a vida que sempre mereceste por lutar como uma vencedora. Uma rainha. Escrevo sobre as nossas dores mas descansa porque é só uma parte de mim que ficará até eu adormecer. Uma raiva que não consigo superar... Por mais que vença na vida. Por mais que sorria. Quero-te pedir desculpa. Já sei lá porquê... Na confusão dos dias em que penso no que poderíamos ter vivido e não vivemos sinto-me perdida. Desgarrada de tudo o sou. Um eu à parte. Que não é mais a mulher de coragem que me ensinas-te a ser. Escrevo para ti sobre isto e peço-te desculpa porque só mereces coisas bonitas. Acho que nunca vou conseguir superar a ausência que deixas-te. A falta de colo que passei quando eras só tu quem me podia sarar. A tristeza de não poder ligar para ti quando ou o mundo me enlouquece ou o mundo é tão belo. Ligar-te só para dizer que estou a chegar a casa. Que passei naquele teste. Que arranjei um namorado. Que me faz tão feliz. Que a mana mais nova já está uma mulher. Que me apetece a roupa velha que me fazias sempre que to podia. Que me apetece ser tua filha. Que me apetece ter aqui a minha mãe. Que raiva que eu tenho do mundo! Que vontade de explodir com o cancro! Que vontade que eu tenho de te resgatar... Mas é tudo em vão. O passado é intocável. Desculpa. Mais uma vez. Mas estou a sofrer por não poder tocar nos teus cabelos. Evitei escrever-te esta carta. Mas já sabes que sou sincera em tudo o que sinto... Um beijo mãe. De saudade. Escrever ameniza a minha raiva... Estou mais calma por ter deitado um milionésimo do que sinto para fora. Sei que me encantarás os sonhos. Desculpa... Por não saber calar o que sinto nos dias escuros. Mereces o melhor amor que tenho. Amo-te.

8 comentários:

  1. Oh Mariana... Estou lavada em lágrimas agora que li este texto, mas recuso-me a ficar calada como todos os outros fizeram. Tu mereces que te deixem sentir e expressar essa dor, porque as coisas só são atenuadas quando nos permitimos senti-las ao máximo, caso contrário, parecem explodir dentro de nós. E tu tens tanta dor dentro desse coração de filha, uma dor que ninguém, ninguém mesmo, e muito menos tu merece sentir. E eu não sei sequer o que é carregar uma dor assim pela vida fora, mas se algum dia puder ajudar-te a carregar a tua, quero que saibas que não recuarei. A tua mãe, que decerto estará a olhar por ti. deve ter o maior orgulho na pessoa em que te tornaste e, quando a dor se tornar assim, insuportável, lembra-te que ela decerto te ama tanto, mas tanto. Mas sim, a vida é madrasta e uma filha da puta que leva as pessoas boas e aquelas que nos fazem falta, sem querer saber dos vazios que ficam... Só que não há gritos que vão mudar isso, ou lágrimas que vão alterar isso, porque nós não controlamos essas coisas. Mas se precisares de desabafar, de falar, de gritar e extravasar essa dor, quero que saibas que podes falar comigo. Porque agora que partilhei um pouco da tua dor (muito pequenino mesmo, acredito), quero poder ajudar-te.
    Bons sonhos, pequenina. Estou aqui se precisares.

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  2. Aprendemos a guardar as dores como um mecanismo de defesa que evita o nosso sofrimento, mas isso destroça-nos aos poucos; aumenta-nos a raiva que sentimos em determinados dias, o que faz com que a vontade de explodir seja ainda maior. Há coisas que nos matam por dentro!
    Vivi o cancro de perto quando atacou os meus, por isso sinto parte da revolta que aqui expressas, mas não sinto a dor a cem porcento porque as personagens foram outras. Nunca te culpes, lutaste como podias. Parecerá sempre pouco, mas a verdade é que por maior que seja a nossa vontade de salvar quem amamos há pontos onde não conseguimos chegar.
    Muita força!

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  3. r: O mal é mesmo esse, destruír-nos, o que depois nos dificulta o caminho de superação. Não tens que agradecer, se precisares de falar estou aqui*

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  4. Quando comecei a ler este texto não queria acreditar. O quanto eu lamento por ti, Mariana. E pela tua família. E pela tua mãe.
    Faz dois meses, em breve, que a minha avó morreu de cancro. Sei o que é ficar sem a "segunda mãe". E sei o que é ver sofrer a minha mãe. Lamento muito, muito. Do fundo do meu coração. E um dia, vou mostrar este texto à minha mãe, que perdeu a mãe dela. E sei que ela vai chorar um mundo. E sei que isto vai ajudá-la. E espero que te tenha ajudado a ti.
    Eu também sinto raiva. Tanta raiva. Mas elas, onde quer que estejam, estão melhores. E se ficaram cá mais tempo, foi por amor a nós. É bom saber que como a minha avó, a tua mãe foi guerreira.
    Sabes uma coisa? "I wish cancer got cancer and died", e sei que tu sentes o mesmo.
    Um beijinho do tamanho do mundo.

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  5. Falar, escrever, é o melhor remédio. Quanto mais engolirmos, mais dói. Fazes bem, desabafa. Não deve ter sido fácil mas tu és forte.

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  6. Quando perdi a minha avó, para um tumor, tive de ser o suporte da minha mãe e do meu primo. Não chorei, não fraquejei. Mas parti por dentro. E ainda hoje, passados quase cinco anos, choro sempre que a "visito" seja em pensamentos seja no espaço onde ela agora mora. Dói-me ir a uma das vilas que mais amo porque ela esteve num lar nessa zona. Aperta-me o coração saber que nunca mais vou poder abraçá-la, ouvi-la ou vê-la. E, todos os dias, amaldiçoo o tumor que fez a minha avó esquecer-se de mim. Que fez a minha avó deixar de ser quem sempre tinha sido. E eu só a queria aqui, a ver-me ser quem ela sempre sonhou que eu seria.

    Não posso dizer que conheço a tua dor porque todos nós sentimos a dor de maneira diferente. Mas posso dizer que compreendo o ódio a estas doenças que nos tiram quem mais amamos. Que, mesmo estando em corpo alheio, nos tiram um pedaço de nós.

    Força!

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  7. o meu diálogo não se compara às palavras que li agora. por muito que te possa dizer, sei que nada será suficiente para amenizar essa dor. no entanto, sei também que és uma menina cheia de garra e vais conseguir superar todos os dias menos bons que possam surgir.
    um beijinho grande e um abraço do tamanho do mundo, Mariana <3

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  8. Acho que não deves pedir desculpa por lhe dizer de alguma maneira como te sentes. Parece-me que passaste muito tempo a calar isso, a chorar só para ti, sentindo-te aprisionada onde ninguém te permitia dizer o que sentias e portanto te impediam de o sentir na sua totalidade, de o admitir e consequentemente de começar a sarar essa dor. Por isso liberta-te, sei que ela onde quer que esteja havia de querer isso, o melhor para ti! Força*

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