sexta-feira, 17 de março de 2017


Bates-me à porta.
Sempre que a brisa atropela a madeira velha que agarra as janelas de casa. Sempre que as flores desabrocham um bocado mais. Sempre que os meus vestidos me iluminam as luzes que nem toda a gente vê.
Bates-me à porta:
Numa saudade que me afoga e me adorna com tudo o que tento esquecer ou lembrar-me. Devagarinho. Às vezes tão de força que custa conseguir arcar com o peso da verdade. (Serás mesmo tu?)
Bates-me à porta e entras.
Também tu adornada de amor e felicidade. Também tu linda e requintada sem precisares de adornos que te salvem. Também tu airosa e cheirosa de vida.
Bates-me à porta e entras:
É impossível não te sentir o abraço. (Como poderei saber sem vê-lo?) A saudade que nele vive. O ardor que é ter de pedir ao tempo para que a brisa te devolva à minha porta.

Sinto-te.

Bates-me à porta e estás comigo.
É impossível negar que não estás cá quando te sinto tanto. Quando as minhas veias carregam a força que o meu corpo transporta. Impossível negar o quão sinto saudades de a porta em que bates ser real. E que com ela, venhas tu.

Estás comigo.
Sei-o. Nunca deixaste de estar. E ambas sabemos que aqui não estás.
Amo-te. No maior amor que a vida e o sentimento podem carregar e sentir. Na maior altitude e no maior dos patamares que o amor por alguém pode ter, ser, sentir e construir.

Bates-me à porta e estás comigo:
Como posso negá-lo quando até os meus olhos acreditam que estás cá. Como alguém pode enganar a morte. Como a morte nos pode enganar a nós. Como é que ambas sabemos que ninguém pode enganar ninguém e ambas acreditamos estar aqui.

Estás comigo, repito. Fica comigo, peço. Volta para mim, já nem sei porquê. Porque nenhuma explicação chegará ao limiar do que é viver a tua falta com a presença omnipotente que me dás.
Sei que vivo num labirinto. A minha mente não mente. Mas algo mente por mim. A vontade (?), o desejo (?). O amor. Pela tua pele. Pelo teu sorriso. Pelas tuas gargalhadas. Pela tua coragem. Pela tua luta. Pelo olhar com que me olhavas. Nunca mais ninguém me pegou ao colo assim. Pela tua presença: feita de paz e esperança, feita de luz e bondade, feito de força e vontade. Pela tua dignidade. E que saudades tenho da integridade que tinhas. Da pessoa bonita que eras. E nem precisavas de falar. Toda a gente sabia, menos tu, que eras a mulher com mais força do mundo. Ninguém sabia, nem tu, que era eu a mulher com mais força do mundo a seguir a ti devido a ti.

Bates-me à porta. Do olhar, da esperança, da saudade, do coração.
Todos os dias te recebo e em nenhum dia me despeço de ti. Ambas sabemos que os labirintos nunca chegam ao fim. Ambas sabemos que foi por isso que os criámos.

Bates-me à porta. Faz de conta, para aqueles que não percebem, que são daquelas de madeira. Continua a chegar.

Eu nunca te deixarei ir.

3 comentários:

Até Já

A minha foto
Amor, saudade, dor, ausência, paixão...