quarta-feira, 29 de abril de 2015

Imagino que me escovas o cabelo. E que nos rimos. Depois, sem querer, magoas-me. E eu olho para ti chateada. Passas-me a mão pela cara e continuas. Conversamos. Em conversas que nos levam para longe do mundo que vivemos. Para sítios que já conheces-te e que gostavas que eu conhecesse também. Dizes-me que queres que tenha um futuro brilhante e que no que depender de ti não será nem menos um bocadinho escuro. E eu concordo. Apesar de te dizer que tenho medo. De enfrentar aqueles que são maiores que eu. Que parecem ser muito melhores que eu. E tu dizes-me que, se eu quiser, serei ainda maior. Ainda melhor. Que o meu futuro será do tamanho da minha vontade de viver e que sabes que isso é o que nunca me vai faltar (porque viverás sempre na algibeira do que sou). Peço para que me contes como foi casares com pai. E ter as filhas lindas que tens hoje, inclusive eu. E tu dizes-me que foi a maior bênção que tiveste na vida. Que apesar de a vida ter sido madrasta contigo tantas vezes e de teres pensado em desistir pegaste sempre em nós antes de decidir qualquer coisa. E que connosco sabias que tinhas de seguir em frente. E connosco sabias que dali para a frente só seria melhor. Porque vias os nossos sorrisos cheios de amor por ti. Nesse momento sorria. Embebida pelo sentimento que é ser a tua melhor amiga. De seres a minha melhor amiga. Entretanto, o meu cabelo já estava penteado. Eu já sabia. Tu já sabias. Mas continuavas, mas continuávamos. Imagino que me contavas em segredo que muitas vezes é difícil aguentar o peso que as pessoas põem em cima de nós. E que quando chegar o momento em que sinta essa dor para pensar em ti. Nas vezes em que te vi agarrar no nada que tinhas e começado de novo. Nas vezes em que as lágrimas ainda de ti caíam e já estavas a seguir para um novo caminho. A construir um futuro melhor. E eu prometo-te que assim será. Que quando me sentir mal saberei que o segredo estará em ti. Na tua força. Essa que será a minha na altura. Imagino que, finalmente, páras de me escovar os fios de cabelo. E dizes que são horas de fazer o jantar. Eu vou pôr a mesa. E as manas chegam. E o pai está atrasado, como sempre. Acabamos por ir as três para a cozinhar fazer-te companhia. E somos felizes. Fazemos um bolo. Esperamos que a vida seja sempre assim. Chega à hora e o pai chega. Vamos todos para a mesa. Imagino que nunca faltará um lugar na mesa. Que seremos sempre nós, mesmo com as ausências do pai. Penso que não poderia pedir mais. E que, finalmente, me apercebo que estou a imaginar. Mas não acordo... Não quero acordar. Tem vezes que sabe bem vivermos nos momentos que se podiam tornar infinitos. Como quando me escovavas os cabelos. Como quando nos ríamos livremente. Imagino como seria se o lugar na mesa ainda estivesse ocupado... E penso que não estou a pensar bem. Tu ainda continuas sentada.... Em cada uma de nós.

5 comentários:

  1. Fico sempre de coração apertado e lágrimas nos olhos. Está lindo!

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  2. Quando escreves à tua mãe as tuas palavras conseguem tornar-se ainda mais doces. O amor que lhe tens é lindo.

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  3. Gostei muito! E o teu comentário fez-me ter vontade de voltar a escrever por estes lados. Muito obrigada!

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  4. :') que palavras tão lindas... Nem sei o que é passar por uma perda assim... :s deve custar horrores. Forcinha *

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  5. Esse enorme amor e carinho que tens à tua mãe é uma verdadeira inspiração para mim. Sempre que lhe diriges as tuas doces palavras, sinto esse teu sentimento a flutuar até mim e a deliciar-me. É triste, claro, que guardes tanta dor por aquilo que lhe aconteceu, mas é uma benção que não deixes de amar dessa maneira tão gigante e fofinha. :)

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Até Já

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Amor, saudade, dor, ausência, paixão...