quinta-feira, 28 de maio de 2015

Dez anos num segundo, mamã

Há dez anos prometi viver por ti. E sei que falhei muitas vezes. Quando não me apercebi da promessa que te tinha feito. Que me tinha feito - a única que me faria sobreviver. Mas falhei. E tentei morrer com a tua morte. Tantas vezes vivi no escuro... Porque lidar com a ausência de alguém que amamos é cruel. Duro. Tão duro como vivermos sozinhos. Até que chegou o momento em que tanta dor não poderia ser o único sentimento da minha vida, para além de te amar incondicionalmente. Porque amar algo tão bonito não poderia estar ligado a tanta dor. Não te sei dizer quando aconteceu esse momento. Não to sei explicar. A volta que me fez olhar para ti de maneira diferente. O dia em que deixei de vestir o preto, na minha vida. Em que comecei a aperceber-me que não era isto que querias para mim. Que para mim tu só querias o melhor. Que eu fosse linda. Guerreira. Lutadora. Que eu fosse feliz. Rainha do sorriso que me deste. Que me ensinaste a ter. E comecei a perceber que a minha vida podia ser construída todos os dias. Que os amanhãs servem para nos ajudar a ser melhores. A construir o caminho que ficou por marcar no dia anterior. Mãe. Amor. Comecei a viver. Não sei quando... Mas sei como. Que foi por ti. Por saber que vives em mim. Por saber que te carrego até nos meus silêncios. Que te vivo até nas noites mais mortas. Mãe. Amiga. Há dez anos prometi que cuidava de mim. E hoje sei que vives feliz por o cumprir. Por mais tempo que tenha demorado. Por ter saído da infelicidade que é não conseguir sair da dor. Da saudade que tantas vezes me esganou o peito. Da saudade que tantas vezes me explodiu com as lágrimas e me desfez, pedaço por pedaço, por saber que não voltavas. Por saber que por mais que o meu coração pedisse -e sabes que ainda o pede todos os dias, tu não voltavas. Sinto-te tanto. Que hoje penso nos dias em que deixei com que acreditasse que a vida seria sempre assim. Infeliz. Hoje faz dez anos que partiste do meu abraço. Dez anos da reconstrução de um novo eu que sempre viveu em mim. Escondido pelo raiva, pela fúria, pelo desgosto, pela vontade de ter o que a morte leva e não trás de novo. Dez anos de aprendizagem. De amor. Tantas vezes sarado pelas noites saldadas em lágrimas. Com os apertos de desejar que fosses tu e não a almofada quem eu agarrava. Com os apertos de desejar que fosses tu e não apenas as manas a entrar pela porta. Com o aperto de ter sempre que viver com a ansiedade de te voltar a ver em todos os lugares. Com a dor de te procurar nos lugares onde encantavas a minha vida quando ainda davas cor ao meu mundo. Há dez anos prometi viver por ti. E por mim, imperativamente. E sei que por mais fendas que tenha aberto hoje sabes que fiz de tudo, e ainda o continuo a fazer afincadamente, para que a minha vida seja o dobro daquilo que eu mereço. Que tu merecias. Que tu mereces. Tu que devias ser infinita minha mãe. O meu colo imparável. O meu riso insubstituível. A gargalhada mais bonita da minha vida. Tanta coisa bonita que hoje, passado tanto tempo, parece que foi apenas à um minuto que o som da tua voz silenciou. 
Mãe, existem nós que não conseguimos desfazer por mais que lutemos. Nós que representam a saudade fisicamente. Nós que acompanham a vida de quem sente a saudade que sinto. 
Há dez anos prometi lutar. Contra o vento que rema contra mim, contra as ondas que insistem em levar-me na direção oposta ao meu caminho. Contra a crueldade que atinge os corações de quem sofre. Contra a fome de desejar arder com a tua ausência nas tarefas da minha vida. E hoje sei que verifico cada hipótese. Não sabendo bem quando é que a reviravolta aconteceu mas tendo a certeza que foste tu quem clicou em mim. Nas minhas vitórias. No lugar do meu coração que é mais forte que as infortunas que a vida trás. No caminho do meu sorriso. Que ativado é tão bonito como o teu. Tão maluco como o som da tua gargalhada era. Fico tão feliz porque sei que sou uma cópia de toda a bondade que tinhas dentro de ti. Que me semeaste o que de melhor em ti possuías. Que era tudo. Cada porção de tudo o que eras feita. 
Sei que doerá sempre que o vento me traga as memórias de uma vida contigo. Mas sei que estarei em paz por continuar a viver numa vida contigo. 
Sempre te disse que as pessoas só morrem quando as esquecemos do nosso coração.
E mãe... És a razão do meu ainda continuar a bater.

13 comentários:

  1. E vai continuar a ser a tua razão de viver, sempre! Mãe só há uma. E acredita que ela tem o maior sorriso nos lábios neste momento por ter deixado cá alguém como tu. E ela queria que essa força toda e a coragem que tens há 10 anos se mantivesse. Não a desiludas e continua a menina super forte. Eu sei que consegues :D
    Eu estou aqui para ajudar :)

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  2. Não existem quaisquer palavras para este teu texto, são dificeis de serem expressadas por tanta garra que é escrita e descrita. Não te conheço mas tenho a certeza que vive um orgulho imenso na tua mãe por saber que te tornaste tão forte e lutadora, o que sinto que és a cada texto, e quem escreve assim, sei-o, pensa dessa forma, e quem sonha muito tem sempre o desejo escondido (ou não) da força.

    E que essa força te continue a acompanhar pela vida fora e por esse teu caminho, onde desejo que soltes as gargalhadas que o mundo te pede e que sejas muito feliz, porque dói muito perder quem se ama, mas nós ficamos para poder mostrar ao mundo que somos também um tanto de quem nos amará para sempre.

    Beijinhos querida Mariana.

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  3. É preciso muita força para sobreviver a algo que destrói assim, mas tal como disseste "as pessoas só morrem quando as esquecemos do nosso coração" e no teu a tua mãe permanecerá viva porque o amor que sentes por ela, aquele que transparece em todas as palavras que de tão sentidas dão um nó ao coração, permanecerá sempre e isso é algo que ninguém te tira porque ela continua a viver em ti

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  4. Quando nos apercebemos da dimensão de determinadas promessas fazemos de tudo para as cumprir. Perder alguém que nos é tanto é horrível, sufoca-nos, leva-nos uma parte de nós. E qualquer sentido de vida parece desaparecer rapidamente. Não é fácil sair desse estado escuro em que permanecemos porque sentimos que nos tiraram tudo. Só que depois, com tempo, aprendemos a fazer o nosso luto. E compreendemos que não podemos continuar assim não era isso que aquela pessoa ia querer.
    Há momentos em que temos que aprender a sobreviver para depois viver em pleno!

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  5. A tua mãe está, de certeza, orgulhosa da mulher em que te tornaste :)

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  6. Que lindo... Depois de ler isto só posso ter a certeza de que a tua mãe, onde quer que esteja, tem o coração a transbordar de orgulho pela filha forte que trouxe a este mundo. Tu és mesmo uma guerreira, a dor muda as pessoas e tu soubeste mudar para melhor com ela.

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  7. Nossa, amiga, quase perdi a minha essa semana... Puxa, veio muito a calhar.

    Bjos

    http://chuvadecamelias.blogspot.com.br/

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  8. r: Não sei se alguma vez virei a fazer alguma, mas gostava :)

    Sim, sem dúvida! Outro para ti, minha linda*

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  9. Há todo um amor incrível nas palavras que escreves sobre ela, nas palavras e no coração, com toda a certeza :)

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  10. É sempre tão bonito, ler aquilo que escreves para a tua Mãe, mas ao mesmo tempo, tem sempre uma nota de tristeza que não desaparece... Mas sabes? Esse amor que lhe tens é tão bonito e ela deve estar tão orgulhosa de ti! Continua a sorrir e a reinventar-te, por ti, por ela, por esse amor que lhe tens.

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  11. Mariana... que texto lindíssimo. Fiquei inundada em lágrimas. A tua mãe estará, certamente, muito orgulhosa de ti. Tu deves estar. Um grande beijinho :)

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  12. P.S. Já vi o último episódio de TVD e, como não podia deixar de ser, chorei que nem uma desalmada. Mas gostei do fim que deram à personagem que saiu. Deixaram as coisas em aberto e isso deixou-me satisfeita.

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Até Já

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Amor, saudade, dor, ausência, paixão...