terça-feira, 24 de novembro de 2015

Aonde quer que estejas, além do meu coração


A minha mãe venceu o cancro. Ganhou a luta que a vida travou contra ela. A minha mãe venceu o cancro. E, no entretanto, ganhou a garra toda nos tempos em que precisou de ser guerreira. Em que precisou de agarrar as nossas mãos. Nos momentos em que precisou que lhe agarrássemos as mãos. Quando a vida a deixava de rastos, sem forças, sem voz, enjoada, doente, a minha mãe venceu as cicatrizes... Sem nunca perder a esperança que a cura chegaria a qualquer momento. Mesmo que às vezes esse momento parecesse tão longo e infinito. Sem nunca perder o sorriso que nos fez acreditar tantas vezes que viveria ao nosso lado eternamente. Lutou. Mesmo quando a corpo falhava. Mesmo quando as suas noites tinham que ser passadas na cama de um hospital. Mesmo quando o cabelo lhe caía. Quando as suas bochechas rosadas se tornavam tão claras. Mesmo quando ficava indisposta e tinha que fazer quimio e radioterapia. A minha mãe foi uma guerreira. Levantando-se sempre que reunia as forças para se levantar. Desejando sempre voltar para a cama ao nosso lado. Ficando a mulher mais bonita do mundo mesmo sem cabelo... Porque nunca deixou de sorrir. Esse sorriso que lhe dava a melhor feminilidade, confiança e beleza que alguém pode ter. Que, mesmo depois de um céu tão nevoentado, nunca deixou cair os braços. Nunca deixou de lutar por nós... e vice-versa. Porque sabia que era a única maneira de lutar por ela. Porque sabíamos que era a única maneira de lutarmos por ela e pelo nosso medo. Porque sabemos sempre que a solução para as dores incuráveis estará no coração daqueles que amamos. A minha mãe... Lutou. Ganhou. Viveu. Intensamente todos os minutos que lhe foram dados. Mesmo quando a dor penetrava cada célula que a fazia viver, mesmo quando o medo se infiltrava em cada poro que nela respirava. Lutou, ganhou, viveu. Contra a merda do cancro que lhe consumiu o corpo. Mas venceu. Apesar de hoje não estar no meu abraço, aqui continua. Apesar de hoje não sorrir do meu lado, aqui continua. Apesar de não ter vencido o que a atacou, venceu.  A minha mãe venceu o cancro.  Ninguém, nunca, me tirará essa certeza. Aquela que vivi todos os dias por conviver com uma mulher-furacão.  Aquela que acreditei, e que ainda hoje continuo a acreditar, ter sido a força dela: a certeza de que a vida dela seria eterna. A certeza de ter feito, a cada segundo, o essencial para conseguir morar sempre em nós. A minha mãe não venceu o cancro. Mas acredito, com toda a certeza que vive em mim, que sim. Porque nunca perderemos uma batalha se dela fizermos a nossa luta. 


3 comentários:

  1. "Porque nunca perderemos uma batalha se dela fizermos a nossa luta. "

    Será sempre e para sempre uma verdadeira GUERREIRA!

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  2. Tal como escrevi no meu livro: contra o cancroo não existem derrotas porque quem luta, luta até ao fim! A tua Mãe será sempre uma guerreira porque não desistiu mesmo com todos os efeitos secundários da quimio. Guarda em ti todas as valiosas liçôes que ela te deu.

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